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Artigo
originalmente publicado no New York Times, em 27 de
Janeiro de 2008
Repensando o Voraz Consumo de Carne
- por Mark Bittman

foto: Gary Kazanjian, do The New York Times
Uma séria
mudança no consumo de um recurso que os americanos
dão por certo que podem ter em estoque – algo
barato, abundante, amplamente apreciado e parte da
vida diária. E não se trata de petróleo.
Trata-se de carne.
Os dois produtos compartilham muito em comum: como
o petróleo, a carne é subsidiada pelo
governo federal. Como o petróleo, a carne se
sujeita a aumento de demanda à medida que as
nações se tornam mais ricas, e isso,
consequentemente, eleva o seu preço. Finalmente
– como o petróleo – a carne é algo a
que as pessoas são encorajadas a consumirem
menos, enquanto que o custo imposto pelos produtores
aumenta e se torna cada vez mais perceptível.
A demanda mundial por carne multiplicou nos últimos
anos, encorajada pela crescente afluência e
nutrida pela proliferação de gigantescas
operações para alimentação
de animais confinados. Essas amontoadoras fábricas
de carne consomem enormes quantidades de energia,
poluem as fontes de água, geram significativos
gases produtores do efeito estufa e requerem uma quantidade
sempre-crescente de milho, soja e outros grãos;
uma dependência que leva a destruição
de vastas áreas das florestas tropicais de
todo o mundo.
Esta semana, o presidente do Brasil anunciou medidas
emergenciais para refrear os desmatamentos e queimadas
das florestas tropicais do país para plantio
e terra de pasto. Apenas nos últimos cinco
meses, o governo diz, 2.000 quilômetros quadrados
foram perdidos.
O total mundial de fornecimento de carne foi de 71
milhões de toneladas em 1961. Em 2007, estimou-se
a produção de 284 milhões de
toneladas. O consumo per capita mais do que dobrou
desde aquele período. (No mundo em desenvolvimento,
isso cresceu duas vezes mais rápido, dobrando
nos últimos 20 anos). Espera-se que o consumo
mundial de carne dobre novamente até 2050,
o que um especialista, Henning Steingield, das Nações
Unidas, diz que resultará em um “crescimento
implacável da produção de gado”.
Americanos comem aproximadamente a mesma quantia de
carne que comíamos há algum tempo, cerca
de 230 gramas por dia; cerca de duas vezes mais do
que a média global. Nós “processamos”
(ou seja, criamos e matamos) aproximadamente 10 bilhões
de animais ao ano, mais de 15 porcento do total mundial.
Cultivar carne (é difícil usar a palavra
“criar” quando aplicada a animais em fazendas-fábricas)
usa tantos recursos que é um desafio enumerar
todos. Mas leve em consideração: uma
estimativa de 30 porcento do solo livre de gelo da
Terra está direta ou indiretamente envolvido
com produção de gado, de acordo com
a Organização de Agricultura e Alimento
das Nações Unidas [United Nations’ Food
and Agricultural Organization], que também
estimam que a produção de gado gera
cerca de um quinto dos gases responsáveis pelo
efeito estufa do mundo – superando o transporte.
Para colocar a demanda de energia da produção
de carne em termos de fácil compreensão,
Gidon Eshel, um geofísico do Centro Bard, e
Pamela A. Martin, professora de geofísica da
Universidade de Chicago, calcularam que, se os americanos
reduzissem o consumo de carne em apenas vinte porcento,
isso seria como mudar de um Sedan 77 para um Toyota-Prius
ultra-eficiente. Similarmente, um estudo feito ano
passado pelo Instituto Nacional de Ciências
da Criação de Gado e Áreas de
Pastagem do Japão [National Institute of Livestock
and Grassland Science of Japan] estimou que 1 quilo
de carne bovina é responsável pela quantia
de dióxido de carbono equivalente a emitida
pelo carro popular europeu a cada 250 quilômetros,
e queima energia suficiente para manter acessa uma
lâmpada de 100 watts por aproximadamente 20
dias.
Grão, carne e até mesmo energia são
amarrados de tal maneira que podem trazer resultados
desastrosos. Mais carne significa um correspondente
aumento de demanda por ração, especialmente
milho e soja, que alguns especialistas dizem que irá
contribuir para preços mais elevados.
Isso será inconveniente para os cidadãos
de nações mais ricas, mas isso pode
ter trágicas conseqüências para
aquelas mais pobres, especialmente se o aumento dos
preços das rações desviar o cultivo
de grãos da produção alimentícia
que visa o consumo humano. A demanda por etanol já
está fazendo com que os preços sofram
aumento, e explica, em parte, o aumento de 40 porcento
do índice calculado de custo alimentício
feito pela Organização de Agricultura
e Alimento das Nações Unidas.
Embora aproximadamente 800 milhões de pessoas
no planeta sofram de fome ou desnutrição,
a maior parte do milho e da soja plantados no mundo
alimenta o gado, porcos e galinhas. Isso apesar da
inerente ineficiência: cerca de duas ou cinco
vezes mais grãos são necessário
para produzir a mesma quantidade de calorias através
da criação de gado do que através
do consumo direto de grãos, de acordo com Rosamond
Naylor, professora de Economia da Universidade Stanford.
É preciso dez vezes mais grãos no caso
dos animais de corte alimentados por grãos
nos Estados Unidos.
O impacto ambiental de se produzir tanto grão
para alimentar animais é profundo. A agricultura
nos Estados Unidos – muita da qual serve agora a demanda
por carne – contribui para quase três quartos
de todos os problemas da qualidade de água
dos rios e riachos nacionais, de acordo com a Agência
de Proteção Ambiental [Environmental
Protection Agency].
Porque o estômago do gado é próprio
para digerir capim, e não grãos, o gado
criado industrialmente cresce apenas no sentido de
ganhar peso rapidamente. Essa dieta torna possível
remover o gado de seu meio natural e aumenta a eficiência
do confinamento e abatimento em massa. Mas isso causa
tantos problemas de saúde que a ministração
de antibióticos é rotineira, em quantidade
tamanha que pode resultar em bactérias resistentes
a antibióticos que desafiarão a eficácia
dos medicamentos para humanos.
Estes animais alimentados com grão, por sua
vez, estão contribuindo para problemas de saúde
entre os cidadãos mais ricos do mundo – problemas
de coração, alguns tipo de câncer,
diabetes. O argumento de que a carne provê proteínas
úteis é válido, se a quantidade
for pequena. Mas o “você tem que comer carne”
entre em colapso em muitos níveis americanos.
Mesmo se a quantia de carne que comemos não
for nociva, necessária ela não é.
Americanos estão aproximando seu consumo per
capita de carne bovina, de aves e de peixe (laticínios
e ovos são à parte, e quase insignificantes)
a quase 90 quilos ao ano, um aumento de 22 quilos
por pessoa nos últimos 50 anos. Cada um de
nós consome algo como 110 gramas de proteína
ao dia, cerca de o dobro da cota recomendada pelo
governo federal; disso, aproximadamente 75 gramas
vêm de proteína animal. (Mesmo o nível
recomendado é considerado por muitos especialistas
em nutrição como sendo superior ao necessário).
Parece que a maior parte de nós ficaria satisfeita
com ao redor de 30 gramas de proteína ao dia,
toda essa quantia obtida de fontes vegetais praticamente.
O que pode ser feito? Não há uma resposta
simples. Melhor administração dos refugos,
para alguns. Eliminar subsídios também
poderia ajudar; as Nações Unidas estimam
que eles representam 31 porcento do renda agrária
mundial. Práticas agrárias aprimoradas
ajudariam também. Mark W. Rosegrant, diretor
de tecnologia de meio-ambiente e produção
do Instituto Internacional de Pesquisa de Política
Alimentar [International Food Policy Research Institute]
sem fins lucrativos, diz: “Deveria haver investimento
na reprodução e administração
da criação bovina para reduzir o impacto
necessário na produção de qualquer
quantia de carne”.
Há tecnologia, portanto. Israel e Coréia
estão entre os países que experimentam
usar os refugos animais para a obtenção
de eletricidade. Uma das maiores operações
referentes à suinocultura está em andamento
nos Estados Unidos, com algum sucesso, com o fim de
transformar esterco em combustível.
A longo prazo, não parece mais loucura acreditar
na possibilidade de “carne sem alimentação”
– carne produzida in vitro, criando células
animais em um ambiente super-nutrido antes de ser
possível a manufatura manipulada de hambúrgueres
e bifes.
Outra sugestão é o retorno à
carne de gado de pasto, uma alternativa bem realista
se você aceita a psicologicamente difícil
e politicamente impopular noção de se
comer menos carne. Isso porque a criação
pastoril jamais produziria tantas cabeças de
gado quanto as fazendas-fábricas produzem.
Ainda assim, disse Michael Pollan, autor do recente
livro In Defensa of Food [sem tradução
para o português]: “Em locais onde você
não possa cultivar grãos, engordar vacas
com capim sempre fará mais sentido”.
Mas porcos e galinhas, que convertem grãos
em carne com maior eficiência do que o gado,
são a carne cada vez mais escolhida por produtores,
somando 70 porcento do total de carne produzida, com
sistemas industrializados produzindo metade da carne
suína e três quartos da galinácea.
Uma vez, esses animais foram criados localmente (muitos
Nova Iorquinos se lembram dos porcos de Secaucus),
reduzindo custos de transporte e permitindo que seus
refugos fossem dispersados em terrenos próximos.
Agora, as instalações para produção
de suínos, que se assemelham mais a prisões
do que a fazendas, ficam a centenas de quilômetros
da maior parte dos centros demográficos, e
seus “lagos” de excremento poluem riachos e água
subterrânea. (Somente em Iowa, instalações
e fazendas de suinocultura produzem mais de 50 milhões
de toneladas de excremento anualmente).
Esses problemas nasceram aqui, mas não se restringem
mais aos Estados Unidos. Enquanto que a demanda doméstica
por carne se estabilizou, a produção
industrial de criação de gado está
crescendo mais do que duas vezes mais rápido
do que a produção por métodos
tradicionais, de acordo com as Nações
Unidas.
Talvez a maior esperança de mudança
resida nos consumidores se tornarem conscientes dos
verdadeiros custos da produção industrial
de carne. “Quando você volta a sua atenção
para os problemas ambientais dos Estados Unidos”,
diz o professor Eshel, “quase todos eles têm
sua origem na produção alimentícia,
especialmente na produção de carne.
E as fazendas-fábricas só são
uma ‘otimização’ enquanto a poluição
das reservas de água é permitida. Se
largar toda essa estrutura é algo dispendioso
– mesmo ela carregando uma etiqueta de preço
apenas um pouco superior a zero – toda a estrutura
de produção alimentícia irá
mudar drasticamente”.
O bem-estar dos animais pode ainda não ser
uma grande preocupação, mas, à
medida que a criação de carne em confinamento
se torna conhecida, mais pessoas que amam os animais
podem passar a reagir. E o mundo não seria
um local melhor se direcionássemos parte dos
grãos que usamos para produzir carne para os
nossos seres humanos semelhantes?
O preço real da carne bovina, de porco e de
aves domésticas mostra-se estável, talvez
tendo até decrescido, nos últimos 40
anos ou mais (em parte devido aos subsídios
de grãos), embora comecemos a vê-lo crescer
agora. Mas muitos especialistas, incluindo Tyles Cowen,
professor de Economia da Universidade George Mason,
diz que eles não acreditam que o preço
da carne irá crescer o bastante para afetar
a demanda dos Estados Unidos.
“Eu simplesmente não acredito que podemos contar
com o preço nos mercados para reduzir o nosso
consumo de carne”, ele disse. “Talvez os preços
sofram alta temporariamente, mas isso será
quase que certamente neutralizado posteriormente.
Mas se toda a culpa for colocada nos consumidores,
não será um caso tão trágico”.
Se as altas de preço não mudam hábitos
alimentares, talvez a combinação de
desflorestamento, poluição, mudança
climática, aumento da fome, problemas de coração
e crueldade contra os animais gradualmente encoraje
o ato diário simples de comer mais plantas
e menos animais.
O Sr. Rosegrant do Instituto de Pesquisa de Política
Alimentar diz prever “uma forte campanha política
para a redução do consumo de carne –
como as campanhas ao redor do tabagismo – enfatizando
saúde pessoal, compaixão pelos animais
e compaixão pelos pobres e pelo planeta”.
Não seria surpreendente para o professor Eshel
se tudo isso tivesse um impacto verdadeiro. “O bem
dos corpos das pessoas e o bem do planeta estão
mais ou menos perfeitamente alinhados”, ele disse.
A Organização de Agricultura e Alimento
das Nações Unidas, em seu detalhado
estudo sobre o impacto do consumo de carne do planeta
feito em 2007, The livestock’s Long Shadow – Environmental
Issues and Options [sem tradução para
o português], apresenta um ponto similar: “Há
razões para otimismo, pois as conflitantes
demandas por produtos animais e serviços ambientais
podem ser reconciliadas. Ambas as demandas são
envidadas pelo mesmo grupo de pessoas [...] a classe
média-alta relativamente influente, que não
mais está restrita a países industrializados.
[...] Esse grupo de consumidores provavelmente está
pronto para usar sua crescente voz para exigir mudança
e talvez esteja inclinado a absorver os inevitáveis
aumentos de preço”.
De fato, os americanos já estão optando
por comprar produtos mais amigos do meio-ambiente,
escolhendo carnes, ovos e laticínios produzidos
de forma mais sustentável. O número
de mercados de fazendeiros mais do que dobrou nos
últimos 10 anos, e não foge de ninguém
o fato de que o mercado de alimentos orgânicos
vem crescendo rapidamente. Tudo isso representa produtos
que são mais caros, mas de maior qualidade.
Se as tendências continuarem, a carne talvez
se torne um prato para dias excepcionais ao invés
de um prato rotineiro.
Isso não será incomum, senão
que, tão certamente como a industria automotiva
irá ceder ao híbrido, a era dos 230
gramas de carne ao dia irá ter fim.
Talvez isso não seja lá um problema.
“Quem disse que as pessoas precisam comer carne três
vezes ao dia?”.
Tradução por Bhagavan dasa
(DVS)


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