:: Artigos originalmente publicados na revista Volta ao Supremo [Back to Godhead] – Fundada por Srila Prabhupada no ano de 1944 - Artigo referente à edição do bimestre de março/abril de 2008

Provando do Amargor do Fel
- por Sarvabhavana Dasa


Os trechos que seguem são do livro Salted Bread [sem tradução para o português] de Sarvabhavana dasa, que tem por foco como ele e seu amigo Sacisuta serviram o Senhor Krsna e distribuíram Seus ensinamentos na União Soviética. O livro enfatiza a dedicação de Sacisuta e sua prisão subseqüente. Estes trechos, retirados de diversos capítulos de Salted Bread, foram selecionados por Urmila devi dasi, editora associada da revista Volta ao Supremo e editora do livro.

O Começo
Eu tive uma infância bem típica na Armênia, crescendo como qualquer outro garoto. A grande fortuna de minha infância foi ter um excelente amigo próximo que eu chamava de Sako. Nós adotamos o vegetarianismo juntos desde os quinze anos de idade. Meu maior sonho era um dia me banhar no sagrado rio Ganges, visitar todos os templos antigos e subir os Himalaias para me encontrar com os yogis de lá.

Entrando no Mundo Espiritual
Meu amigo Senik me levou ao centro Hare Krsna de Yerevan depois que eu saí do exército. Logo me vi em meio aos devotos cantando e batendo palma. Eu pensava que aquele momento duraria para sempre. Os címbalos e tambores eram tão harmoniosos que senti como estivesse no céu. Todos balançam seus corpos para frente e para trás como ondas em um oceano de bem-aventurança. Alguns devotos traziam ininterruptamente bandejas de comida e tocavam sininhos de mãos; eles estavam oferecendo o alimento para Krsna. Foi então que notei que as frutas que eu havia trazido estavam sendo oferecidas no altar, e olhei ao meu redor para ver se alguém tinha percebido que aquelas eram as frutas que eu havia trazido.

Eu não sei como isso aconteceu, mas eu comecei a liderar o cantar. O que me forçou parar foi a chegada da polícia, a KGB, que estava tentando arrombar a porta. Alguns devotos corriam de uma sala a outra escondendo livros, máquinas de escrever e outros itens.

Após algum tempo, os devotos decidiram abrir a porta. Cinco homens muito irados praticamente voaram para dentro do lugar e começaram a gritar ordens. Eles começaram a vasculhar todo e cada lugar; eu não podia entender o que eles estavam procurando tão avidamente.

Eles começaram a registrar os nomes de todos ali e a verificar seus documentos. Depois que tudo se acalmou, cinco minutos depois, os devotos começaram a servir a comida santificada, prasadam, como se nada tivesse acontecido.

“Sinto muito pela noite passada”, um devoto me disse na manhã seguinte. “A KGB pegou seu nome?”.
“Sim, pegaram”.
“Então isso significa que você é um de nós. Você é um devoto Hare Krsna!”.
“Tudo bem”, eu disse.

Todos os devotos, incluindo eu mesmo, começaram a rir.

Momento Certo para uma Decisão, e a Caminho de Krsna
Assim que entrei em minha casa voltando do centro dos devotos, vi que a KGB havia passado ali e vasculhado a casa onde eu morava com minha família. Sem muito tardar, Sako e depois eu nos mudamos para o centro de Yeravan.

Meu Novo Estilo de Vida
Sako me encorajou a distribuir livros. Então eu decidi tentar. A primeira vez em minha vida que ofereci um livro a alguém, um jovem universitário ficou com ele com grande satisfação. O segundo homem, todavia, leu algumas frases do livro e então o atirou contra o meu rosto. Ele me disse que os Hare Krsnas eram loucos e que um de seus parentes havia aceitado a Consciência de Krsna.

Ele gritava: “E agora ele está completamente louco – ele não está comendo carne, ovos, peixe e nem mesmo bebe álcool! Que loucura é esta? Deus criou tudo para nós desfrutarmos, e esse idiota está dizendo que ele não pode comer com os amigos!”.

Eu me senti ofendido, mas, sem perder o entusiasmo do primeiro rapaz que comprara meu livro, continuei distribuindo mais.

O único problema que eu tinha agora era que eu não queria que a polícia incomodasse meus pais, mas isso era quase impossível, pois meu nome e endereço já estavam na lista negra. Dois ou três meses após eu me mudar para o templo, eu ouvi que a polícia na Rússia estava começando a deter os devotos e a levá-los para a prisão.

Todos se tornaram como tigres selvagens – passando a imprimir e distribuir ainda mais panfletos e livros. Um dia, após a distribuição, quando chegamos no corredor, vimos que todos os devotos pareciam comemorar alguma coisa. Apertamos nosso passo para dentro do centro e vimos o Bhagavad-gita e a Coming Back russos em Armênio.

Perguntei ao nosso líder, Sannyasa dasa, se eu podia dar uma olhada neles, mas ele me disse: “Eles serão usados como os originais para as impressões posteriores. Então é melhor não tocarmos neles para não deixarmos nenhuma impressão digital eventual em alguma página ou ilustração”.

Em algumas poucas semanas, Sannyasa nos trouxe as primeiras páginas impressas do Gita. Em seguida, ele nos ensinou como agrupar as folhas, e todos nós nos sentamos para montar um livro. Nós aplicamos cola na lateral do maço de folhas, pressionamo-no contra a capa e o colocamos debaixo de algumas maletas pesadas perto do aquecedor para que ele secasse rápido. Depois que ele estava seco, Sannyasa então começou a cortar o papel extra com um estilete e uma régua de metal.

Em pouco tempo tínhamos nosso primeiro livro artesanal. Um devoto quis pegar o livro para abri-lo e lê-lo, mas outro o impediu segurando sua mão e disse que primeiro tínhamos de oferecer o livro para guru e Krsna, e só então poderíamos nós mesmos desfrutar dele. Então, colocando-o no altar, começamos um kirtana extático e único. Naquela época, eu não havia me dado conta de todo o significado do grandioso sacrifício do qual eu estava participando naquela pequena sala do nono andar de um de muitos prédios. Após muitos anos, pude entender que estávamos dando início a uma poderosa missão no bloco soviético. Eu não podia imaginar que aqueles livros fariam uma grande revolução e que, após apenas dez ou quinze anos, haveria centenas de templos e milhares de devotos de Krsna na União Soviética simplesmente por causa daqueles pequenos livros artesanais.

Minha Primeira Detenção
Em poucos dias, Sannyasa encheu uma sala de páginas impressas do Bhagavad-gita, e todos nos ocupamos em montar os livros com os ensinamentos de Srila Prabhupada. Foi extático ver como nosso primeiro livro saiu da sala e foi vendido logo ali, do outro lado da rua. Sannyasa nos dizia que tínhamos de aprender todos os passos da manufaturação perfeitamente para o caso de que, se algum devoto não pudesse estar ali, outros pudessem fazer sua parte. O que ele queria dizer era que, se algum devoto fosse preso, os outros poderiam dar continuidade à produção de livros. Nós estávamos tentando não falar muito deste assunto, mas, algumas vezes, era impossível evitá-lo. Praticamente todos os dias a política levaria alguns devotos detidos, bateria neles, pegaria seus livros e então os libertariam algumas horas ou dias depois.

Ninguém dizia, mas todos contavam com a possibilidade de ser o próximo a ser pego.

Eu também estava pensando neste sentido: “E se eles me pegarem? O que eu farei? O que falarei a eles?”.

Quando eu comecei a distribuir os livros, eu era levado algumas vezes a encontrar pessoas que estava redigitando os livros com papel carbono para fazer mais cópias. Eles estariam fazendo isso em uma sala às escondidas, porque na Armênia você não podia ter uma máquina de escrever ou uma fotocopiadora, a não ser que você tivesse permissão especial, o que não era fácil de se obter. E, sem prática, eles digitavam bem devagar, usando apenas um ou dois dedos.

Quando eu lhes perguntava o que estavam fazendo, eles diziam: “Tantas pessoas me perguntam se eu posso lhes emprestar este livro, mas eu não quero emprestá-lo, porque quem sabe quando vão me devolver? Por isso estou fazendo cópias”.

Eu então dizia: “Por que você apenas não compra mais?”.

Eles ficariam boquiabertos e perguntariam: “Tem mais?”, como se nunca tivesse cogitado a possibilidade de haver mais.

Começamos a vender livros para a Rússia através do correio. Por algum tempo isso funcionou bem, até a KGB descobrir. Eles criaram uma nova lei de que um pacote com mais do que certo peso e dimensão estaria sujeito à inspeção.

Então começamos a contrabandear livros para fora da Armênia através de caminhões. Contatamos pessoas que traziam mercadorias para a Armênia e então levavam outros produtos de volta para a Rússia. Eles sabiam como esconder nossas caixas na frente do caminhão atrás de outras caixas.

Uma manhã, após o desjejum, eu acidentalmente ofereci um livro a um homem na rua que, por acaso, era um agente da KGB. Ele começou a me fazer tantas perguntas que comecei a suspeitar de alguma coisa, mas eu não sabia o que fazer.

Ele por fim sacou sua identificação policial e disse: “Coloque suas mãos atrás de suas costas e me siga”.

Foi a primeira vez que recebi ordem para caminhar com minhas mãos atrás de minhas costas. Eu só havia visto esse tipo de comando em filmes, e, há apenas um ano atrás, eu jamais imaginaria que algum dia eu seria tratado daquela forma.

Eu comecei a cantar o maha-mantra em minha mente enquanto eu caminhava pela delegacia. Era possível ouvir alguém gritando à distância. Um dos policiais era gordo e feio; o outro era magro e sorria para mim. Essa é a tática padrão da polícia; com o tempo eu me familiarizei com isso. Um é para bater em você, e o outro faz perguntas gentilmente.

Em Todas as Vilas e Cidades
Esse tipo de breve detenção se tornou algo rotineiro. Muitos devotos haviam sido detidos várias vezes e seguiam com o que tinham de fazer. Em cada detenção, a KGB confiscava os livros, sobre os quais despendíamos muito tempo e energia, e também o dinheiro coletado com as vendas. Muitos devotos estavam deixando o templo ou deixando de ir ao templo por não quererem ser detidos mais e mais vezes.

Cada vez mais, muitos devotos vinham de diferentes partes da União Soviética à Armênia para pegarem livros de Srila Prabhupada e panfletos informativos.

Um devoto disse: “Seria uma medida sábia se vocês devotos armênios não mais saíssem para distribuir livros. Apenas imprimam e montem livros de boa qualidade para nós e nós viremos aqui, pegaremos os livros e os distribuiremos para vocês. Se eles prenderem vocês, onde conseguiremos livros?”.

Outro devoto disse: “Devotos estão fazendo fotocópias do Bhagavad-gita e montando livros em casa para distribuírem. Alguns devotos não têm os livros originais, então o que eles vendem é muitas vezes uma fotocópia de quinta ou sexta geração, que é quase ilegível. Às vezes as páginas estão trocadas e não é possível encontrar a página correta. Mas, ainda assim, as pessoas continuam comprando esses livros dos devotos porque elas têm sede pelo conhecimento da Consciência de Krsna”.

Pregar é a Essência
Sako, que posteriormente recebeu o nome de iniciado de Sacisuta dasa, retornou da distribuição de livros. Ele começou a colar alguns livros e empacotou alguns dos livros em Russo para serem transportados para fora de navio. A atmosfera era pacífica, com alguns devotos cantando um doce kirtana. Alguns estavam conversando sobre a Consciência de Krsna, e outros cozinhavam.

Então, de repente, alguém começou a gritar: “A KGB está aqui!”.

Depois do quarto dia, ficou claro para nós que a KGB já havia levado os nossos líderes da delegacia para a prisão. Ter nossos líderes presos era tão deprimente que algumas vezes não sairíamos por dias, ficando apenas cantando, comendo e dormindo. A única pessoa que seguia fazendo trabalho ativo era Sacisuta – ele produzia mais e mais livros para serem distribuídos, e quase não falava conosco. Ele estava sério, e era como se estivesse em outro mundo. Ele era freqüentemente o único a limpar o chão, a fazer compras, a lavar os utensílios após cozinhar e a fazer as demais tarefas.

Minha Última Detenção
Eu havia perdido a conta de quantas vezes eles haviam me detido e me liberado, mas, depois da detenção de Sannyasa e Kamalamala, eu pensei que, porque a polícia estava agora convencida de ter em sua custódia os líderes de nosso movimento da Armênia, eles não iriam mais ficar nos detendo. Mas eu estava errado. A polícia deteve a mim e outros devotos várias vezes depois daquilo. Durante esse período, nós alugamos uma outra casa para guardar os livros e itens importantes, e iríamos não mais do que uma vez por semana nela.

Uma manhã, por volta de oito horas, Sacisuta e eu estávamos indo para essa casa, levando algumas folhas do Gita que faltavam para completar os livros. No caminho, enquanto no ônibus, eu tive uma estranha premonição. Eu perguntei a Sacisuta se ele experimentava a mesma sensação que eu. Ele disse que também pressentia algum perigo, mas não sabíamos o que fazer ou que direção tomar, seguir em frente ou voltar.

Por nós dois compartilharmos daquela intensa sensação de perigo, decidimos voltar sem levar mais nenhuma página para os livros. Eu não me lembro de Sacisuta voltando atrás em nenhuma outra situação. Fomos novamente detidos naquele dia.

Uma vez detidos, um policial gordo me machucou como nunca, até mesmo pisando duramente em meus dedos com seu coturno, o que me trouxe uma dor excruciante.

“Então”, ele disse enquanto me pisava, “agora eu acho que vocês podem nos dizer onde são impressos seus livros e onde vocês os estocam”.
“Eu não sei, senhor”, eu disse. “Eu realmente não sei. Eu já lhe disse isso várias vezes”.
“Certo, depois que eu lhe preparar um bom assento você irá nos dizer tudo sem demora”.

Ele acenou para um policial próximo a ele e pediu para que trouxesse uma garrafa de cerveja. Então ele se aproximou de mim e, com toda a sua força, deu seu último passo sobre a ponta dos meus dedos com seus pesados coturnos.

“Meu Deus”, eu pensei, “esta é uma das piores situações que já experimentei”.

Então um policial veio com uma garrafa de vidro em sua mão e a posicionou no centro da sala.

“Eu vou lhe perguntar agora pela última vez. Ou você nos diz o que queremos saber ou você irá sentar na garrafa”.

Eu abaixei minha cabeça e comecei a cantar bem alto “Namaste narasimhaya” e orei por socorro.

Então ele veio e torceu minhas mãos enquanto outro segurou minhas pernas, assim eles me levantaram do chão. O terceiro veio e tentou tirar meu cinto. Eu comecei a pular e a sacudir todo o meu corpo de forma que eles não pudessem tirar minhas calças. Então o policial gordo, provavelmente com toda a sua força, socou-me na barriga, e eu pensei que eu seria rasgado ao meio ali. Mas, ainda assim, eu não deixei de me debater.

Eu comecei a chutá-los e arranhá-los tanto quanto eu podia. Eu rasguei completamente a camisa do policial que estava segurando minhas mãos, o que o deixou ainda mais irritado. De alguma maneira, mesmo após muito espancado, eu ainda tinha uma grande quantidade de força e continuei capaz de impedir que aqueles três homens retirassem minhas calças. Eu comecei a gritar mais alto do que eu jamais havia sonhado gritar em minha vida, movendo-me e gritando como um leão por um longo tempo. Eu comecei a pensar na altura em que Nrsimhadeva devia ter gritado quando apareceu para matar o demônio Hiranyakasipu. Assim que eles me levaram para perto da garrafa, eu me debati rápido e a garrafa caiu. Depois de tentarem por inúmeras vezes, eles finalmente me soltaram e saíram da sala.

Eles depois me levaram para um andar inferior e me trancaram em uma de muitas salas. Alguns criminosos também estavam na sala, e começaram a me fazer muitas perguntas. Alguns deles já haviam ouvido sobre Krsna, e um deles já havia até mesmo lido um pouco do Bhagavad-gita.

Entrando no Inferno
Eu costumava comer apenas um pedaço de pão e uma colherada de açúcar pela manhã. O pão era de uma péssima qualidade. Ele era preto e úmido, e, se você o apertasse, escorreria um pouco de água de dentro dele. Assim, eu mantinha o pão na janela por três ou quatro dias até que ele ficasse seco e crocante e só então eu o comia. Ali eu aprendi como fazer contas de japa com pão.

Uma manhã, um policial usou minhas contas para bater em meu rosto e em meu corpo até ele ficar exausto. Aquela japa era minha única posse; para fazê-la eu havia guardado muitos pedaços de pão. Logo, realizamos que mesmo japas de cinqüenta e quatro contas eram muito arriscadas de se manter, então começamos a fazer cordões de vinte e sete contas. Sendo menores, eles eram mais fáceis de serem escondidos de pessoas antagonistas. A única diferença era que tínhamos que cantar quatro vezes para completarmos 108, ou uma volta. Algumas vezes eu usava até mesmo uma japa de nove contas, mantendo-a quase que o tempo todo empunhada.

Após algum tempo, todos na prisão sabiam sobre Krsna. Algumas pessoas de outras celas começaram a perguntar a mim e aos outros devotos sobre a Consciência de Krsna. Em pouco tempo, oferecer o alimento antes de comer se tornou uma tradição em nossa cela. Todos na prisão estavam tomando prasadam com os devotos. Mesmo aqueles que eram contrários à Consciência de Krsna comiam algo de nossas oferendas. Muitos dos presidiários disseram que podiam de fato distinguir entre alimento oferecido e alimento não-oferecido.

Quem Está Louco?
Um dia, mudamos para um hospital psiquiátrico. Encontrando lá com Sannyasa dasa, eu não podia acreditar que a pessoa na minha frente era ele mesmo. Ele era apenas pele e osso. Ele se movia lentamente e produzia sons ininteligíveis. Seu queixo havia ficado comprido, e seus olhos haviam afundado para dentro do rosto. Seu belo rosto, que trazia um pouco de barba, estava muito pálido. Cerca de um mês antes de minha chegada, eles haviam começado a dar à força injeções diárias nos devotos com uma droga neuropsicológica. Algumas vezes, enquanto falava, a boca de Sannyasa secaria e seus olhos girariam como os de um homem bêbado. Outras vezes ele se sentaria e fixaria seu olhar em um ponto por um longo tempo, sem fazer nenhum movimento nem dizer nada. Após algum tempo, ele se levantaria e tremeria como se estivesse com frio. Sannyasa é uma personalidade muito forte, e, não importando o que acontecesse ou em que situação estivesse, ele cantaria todos os dias suas dezesseis voltas do maha-mantra Hare Krsna – uma determinação que me surpreendeu e renovou minhas energias para seguir em frente. Algum tempo mais tarde, eles nos levaram de volta para a prisão para aguardamos julgamento.

Dias Indesejados
Em minha nova prisão, o pior guarda era um homem rude e sempre suado. Ele gritou: “Hoje você irá me dizer onde vocês estavam imprimindo seus livros e quem estava imprimindo para vocês. Eu sei que você não disse para mais ninguém, mas eu vou fazer você falar. Você está entendendo?”.

Ele pegou seu cassetete e se pôs a bater muito violentamente em meu rosto e em minhas têmporas. Então ele me deu um golpe provavelmente com toda a sua força. A pancada me atirou para o outro lado da sala, e eu cai ao chão enquanto muito sangue escorria do meu nariz e também de minha boca. Então ele veio em minha direção e começou a chutar minhas costas e meu peito com tanta agressividade que perdi minha consciência e não me posso me lembrar de nada depois daquilo. Eu abri meus olhos após algum tempo e vi que ele arrastava meu corpo no chão. Enquanto me praguejava, ele pisava sobre meu estômago e sobre o meu rosto sem nenhuma misericórdia. Para proteger meu rosto, eu me virei. Tão logo eu estava de costas, ele chutou minha espinha e eu desmaiei novamente. Tudo ficou preto. Meus ouvidos estavam completamente bloqueados, e apenas um som estranho apitava constantemente em meus ouvidos. Ele então me atirou em minha cela e fechou a porta enquanto me xingava.

Meus únicos infortúnios duradouros foram minha dor de coluna crônica e meu problema nos olhos. A falta de visão foi uma grande mudança em minha vida, e eu tive que me acostumar com minha nova situação. Eu teria de seguir em frente com apenas metade da visão e quase inválido.

Uma vez os devotos pagaram três vezes mais do que o custo usual da propina para nos enviar uma cesta repleta de maravilhosa prasadam. Um prisioneiro estava partindo o pão quando encontrou alguns pedaços de papel escondidos dentro dele. Eram palavras nos encorajando a sermos fortes, a não esquecermos de Krsna e dizendo que deveríamos seguir cantando e seguindo as regulações tanto quanto possível em nossa situação difícil. Lágrimas escorriam de meus olhos enquanto eu lia seus sentimentos sinceros, e minhas mãos tremiam.

A Decisão do Tribunal
Após nosso julgamento, fomos enviados a um campo de trabalho na Sibéria, onde cumpri o restante de minha sentença.

Encerramento
Após o registro da ISKCON, muitas condições mudaram na União Soviética. Mas tal oficialização não foi fácil de ser obtida. Ela resultou de inúmeros manifestos diante de vários prédios oficiais e de passeatas por muitas ruas de Moscou. De maneira geral, durante essas manifestações, havia conflito com a polícia e muitos devotos eram detidos.

Em 1989, pela primeira vez na história, um grupo de cinqüenta devotos foi autorizado pelo governo russo a ir à Índia em peregrinação. A maior parte deles estava sendo torturada pela KBG alguns meses atrás. Foi organizada uma excursão de dois meses. Eu fui afortunado o suficiente para fazer parte dessa peregrinação histórica. Apenas um ano atrás, eu estava sofrendo na prisão, mas agora estávamos cantando e dançando com centenas de devotos de todo o mundo.

O Templo de Radha-Govinda da ISKCON em Calcutá foi o primeiro templo de verdade que vimos em nossas vidas. Havia uma recepção nos aguardando, e milhares de flores foram derramadas da sacada sobre nós devotos soviéticos. Nós lentamente subimos as escadas e entramos no templo.

Os rostos de Radha e Govinda, belos como a lua cheia, sorriam para nós como se dissessem: “Finalmente chegaram em casa. Não há nenhuma KGB aqui, então, por favor, cantem e dancem tanto quanto queiram”.

Tradução por Bhagavan dasa (DVS)


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