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Artigo originalmente publicado na revista Volta ao
Supremo [Back to Godhead] – Fundada por Srila Prabhupada
no ano de 1944 - (Artigo
referente ao ano de 2007)
Humilde
e Bem Consigo -
por Archana Siddhi Devi Dasi
Como terapeuta de famílias, eu aconselho tanto
pessoas do movimento Hare Krsna como pessoas de fora
do movimento. Recentemente eu recebi um e-mail de
uma jovem devota que estava infeliz em seu casamento
devido à postura abusiva que seu esposo tinha,
mas estava em conflito quanto a deixá-lo.
“Talvez seja bom que
eu me sinta mal comigo mesma”, ela escreveu, “porque
isso me fará desenvolver humildade”.
Não foi a primeira
vez que eu ouvi essa lógica. O Bhagavad-gita
ensina que humildade é essencial para o progresso
espiritual. Algumas vezes, os devotos, infelizmente,
pensam que se sentir mal é um pré-requisito
para a humildade.
Diversas vezes me
deparo com devotos se complicando com o conceito de
auto-estima. Tendo lido as orações de
santos de nossa linha, eles, algumas vezes, pensam
que seus sentimentos deveriam se enquadrar nas declarações
auto-depreciativas de tais grandes almas. Por associarem
baixa auto-estima com avanço espiritual, tais
devotos podem perpetuar por toda a vida o sentimento
de estarem mal consigo mesmos. Eles podem acabar por
atrair pessoas para suas vidas que lhes tratarão
de acordo com a maneira com que eles mesmos se sentem
e se percebem.
A confusão
começa por tentar igualar sentimentos que vêem
de nosso ego puro com sentimentos que vêem de
nosso ego material, ou falso. As grandes almas expressam
sentimentos que nascem do ego espiritual puro, sentimentos
que não são contaminados pelos modos
da natureza material. Quando eles se sentem, nas palavras
do Senhor Caitanya, “mais baixos que a palha na rua”,
é uma emoção plena de prazer.
O devoto puro vê à grandeza do Senhor,
e vê a todos como mais qualificados do que ele
próprio. Eles estão imbuídos
de amor e apreciação por toda a criação
de Krsna.
Bhaktivinoda Thakura,
um excelso mestre Vaisnava, escreveu belas canções
expressando sua atração e amor por Krsna,
músicas sobre alcançar a meta do coração
– amor incondicional pelo Senhor – e canções
auto-depreciativas, nas quais ele lamenta sua falta
de devoção. Como uma alma pura, ele
expressa seu apego e amor pelo Senhor e, ao mesmo
tempo, sua angústia de sentir-se desqualificado
e sem esperança de atingir tal amor. Esses
são sentimentos autênticos que nascem
da humildade e de apego e amor pelo Senhor.
Reconhecendo
Nossas Falhas
Nas primeiras fases
de nossa jornada espiritual, talvez experimentemos
rapidamente essas emoções por Krsna
estar preparando a terra de nossos corações
para cultivar nossa devoção. Eu me lembro
de uma importante experiência que tive antes
de me tornar devota. Eu tinha grande dificuldade de
aceitar críticas e achava que minha opinião
era absolutamente certa. Essa mentalidade criou inúmeros
problemas, tanto na área profissional quanto
pessoal. Por meses, eu contestei as recomendações
de meu supervisor quanto a como fazer meu trabalho
como diretora residente de um dormitório universitário.
Minha obstinação estava fazendo o meu
trabalho muito difícil, e eu estava aflita
por isso. Finalmente, um dia, eu tive a poderosa realização
de que eu estava errada. Não só eu estava
errada quanto a esse problema em particular, mas em
relação a várias outras coisas.
É-me impossível
descrever quão libertador foi para mim aceitar
minha natureza falível. Eu não precisava
mais carregar o peso de estar sempre certa em relação
a tudo. Eu me senti pequena, mas ao mesmo tempo muitas
possibilidades se abriram para mim. Pela primeira
vez na minha vida adulta eu pude ver meu autoritarismo
assumir uma posição verdadeiramente
submissa. Essa mudança de postura mental me
preparou para tomar refúgio em meu mestre espiritual
e nos devotos. Krsna nos ajuda a ficarmos livres por
um instante do falso-prestígio para que possamos,
como encorajamento, provar a doçura da humildade.
Algumas vezes, todavia,
quando ainda estamos contaminados pelos modos da natureza
material e identificados com nosso corpo e mente materiais,
sentir-se inferior a palha na rua pode nos tornar
desmotivados, entediados ou deprimidos. Esses sentimentos,
então, impedem nossas praticas devocionais.
Nós temos que julgar se para nossa psique específica
tal psicologia é favorável a consciência
de Krsna ou se é um impedimento no momento.
Paradoxalmente, muitas pessoas precisam desenvolver
um saudável ego material antes de transcendê-lo
e realizar seu ego espiritual.
Eu ouvi uma vez um
palestrante motivacional dizer que as pessoas com
auto-estima saudável pensam menos em si mesmas,
e não menos de si mesmas. Quando nos sentimos
bem quanto a nós mesmos, nós podemos
devotar mais tempo e energia doando-nos aos outros,
ao invés de absorvermo-nos em auto-piedade.
Alta auto-estima também nos dá liberdade
para agirmos de acordo com nossos valores e convicções.
Quando nos sentimos mal conosco mesmos, às
vezes, fazemos coisas para agradar ou apaziguar os
outros. Em um esforço para satisfazer o desejo
dos outros, nós podemos acabar sendo influenciados
a fazer coisas conflitantes às nossas crenças
e valores.
Sentindo-se Digno e Qualificado
Nathaniel Branden,
um famoso psicólogo, define auto-estima como
“a disposição de sentir-se bem consigo
mesmo e qualificado a lidar com os desafios básicos
da vida e como sendo digno de ser feliz”. Como esses
aspectos da auto-estima – auto-conhecimento e amor
próprio – têm relação com
a consciência de Krsna? Krsna quer que todas
as almas aprisionadas no mundo material sejam pacíficas
e felizes. A vida humana nos possibilita a oportunidade
de ocuparmos nossos talentos e habilidades no serviço
ao Senhor. Quando nos oferecemos a servir ao Senhor,
sentimos grande alegria. Um amigo, certa vez, deu
ao meu esposo um quadrinho com os dizeres: “O que
você é é um presente de Deus para
você, e o que você se torna é seu
presente para Deus”.
Além de confundirem
humildade com baixa alto-estima, os devotos, às
vezes, correlacionam o conceito de auto-estima com
orgulho e egoísmo. Mas é, de fato, o
contrário. Pessoas que exibem alta auto-estima
também exibem uma atitude mais humilde perante
os outros. Eles são mais inclinados a admitir
e corrigir erros, enquanto que pessoas com baixa auto-estima
são muitas vezes defensivas e têm a necessidade
de provarem que estão certas.
Em uma famosa história
do Mahabharata, Krsna encontrou certa vez com Yudhisthira
Maharaja e Duryodhana. Desejando glorificar Seu devoto
Yudhisthira, Krsna pediu a ele que encontrasse uma
pessoa mais baixa que ele, e pediu ao pecaminoso Duryodhana
para que procurasse uma pessoa mais gloriosa que ele.
Yudhisthira tinha todas as boas qualidades. Ele era
pacífico e auto-satisfeito. Sem dúvida
ele possuía uma saudável auto-estima.
Mesmo assim ele não conseguiu encontrar ninguém
mais baixo que ele. Mais uma vez, aqui se tem o exemplo
de uma Vaisnava avançado que porta humildade
genuína.
Por outro lado, o
perverso Duryodhana procurou por todo o seu reino
o dia todo e não conseguiu encontrar ninguém
que ele considerasse superior a ele mesmo. Duryodhana
estava contaminado com orgulho e vaidade. Ele invejou
e ofendeu grandes almas. Ele vivia em constante ansiedade
para manter sua posição, sempre tentando
eliminar seus competidores. Sua auto-estima dependia
de fatores externos como posição e poder,
e assim ele não conhecia tal coisa como paz
interior. Ele era atormentado por sua própria
luxúria e ambição.
Orgulho Versus Auto-estima
Pensar em si mesmo
como grandioso é orgulho, não auto-estima.
Uma pessoa com alta auto-estima demonstra humildade.
A perfeição da auto-estima é
percebida em pessoas completamente livres do falso-ego,
nas quais a humildade é produto da realização
espiritual.
No nosso estado condicionado,
nós possivelmente nos identificaríamos
mais com a mentalidade de Duryodhana do que com a
de Yudhisthira Maharaja. Mas no nosso progresso na
jornada espiritual, nós começamos a
nos ver de forma diferente. Quanto mais realizamos
não sermos o executor independente, mas o instrumento,
mais saudável nossa auto-estima se torna. Na
vida material, os modos da bondade, paixão
e ignorância nos influenciam. Esses modos se
misturam e competem entre si para moldar nossa mente,
incluindo o modo como nos sentimos em relação
a nós mesmos.
Pessoas no abismo
do modo da ignorância se sentem felizes e bem
em relação a si mesmas quando seus sentidos
estão satisfeitos. Pessoas imersas no modo
da paixão estão felizes e bem consigo
mesmas quando outros valorizam e reconhecem suas atividades.
Nesses modos inferiores, nossa idéia de eu
oscila o tempo todo.
Pessoas no modo da
bondade são felizes e sentem-se bem em relação
a si mesmas quando agem em conhecimento, de acordo
com seus códigos e valores. Elas são
menos reativas a estímulos externos, assim,
a auto-estima de tais pessoas depende mais de sua
própria vida interior. Consequentemente têm
mais controle sobre como se sentem.
Pessoas em bondade
pura, percebem a si mesmas como instrumentos do Senhor.
Elas não se identificam mais como o agente
de suas atividades.
O Exemplo de Prabhupada
Nosso mestre espiritual,
Srila Prabhupada, demonstrou alta auto-estima. Embora
de baixa estatura, ele parecia grande para nós.
Ele sempre mantinha sua cabeça alta e se movia
com objetivo e confiança. Ele fala de forma
direta, com convicção e coragem. Suas
ações eram intrépidas e ousadas,
e mesmo assim ele tinha uma atitude humilde, sabendo
que seu sucesso era devido à providência
do Senhor. Sua humildade é exemplificada em
suas orações abordo do navio quando
ele estava vindo pela primeira vez aos Estados Unidos
da Índia:
Ó Senhor, eu
sou como uma marionete em Suas mãos. Então,
se me trouxeste aqui para que eu dance, faze-me dançar,
faze-me dançar, ó Senhor, faze me dançar
como quiseres.
Não tenha nenhuma
devoção, tampouco conhecimento, mas
tenho grande fé no santo nome de Krsna. Eu
fui designado como Bhaktivedanta, e agora, se assim
quiseres, podes cumprir o verdadeiro propósito
Bhaktivedanta.
Com grande humildade,
Prabhupada finaliza sua carta, assinado como “o mais
desafortunado e insignificante mendigo, A. C. Bhaktivedanta
Swami”.
De um lado, essas
preces demonstram que Prabhupada se sentia muito baixo,
mas de outro lado ele confiava poder fazer qualquer
coisa com a misericórdia do Senhor. A oração
também nos dá a chave para desenvolvermos
puras qualidades devocionais: fé no Santo Nome.
Quanto mais forte a nossa fé na capacidade
de purificação dos Santos Nomes, maior
será nossa dedicação ao processo
de cantar. Nós cantaremos com tanto foco e
atenção quanto pudermos e evitaremos
com muito cuidado as ofensas que retardam nosso progresso
espiritual.
Nós ficamos
menos propenso a explorar os outros quando vemos a
nós mesmo como servos, realizando a nossa –
dos outros – natureza espiritual como servos de Deus.
Nós somos gloriosas centelhas da energia espiritual,
com todas as boas qualidades, embora sintamo-nos pequenos
na presença do mais glorioso, nosso Senhor.
Com esse verdadeiro conhecimento, a alma pura pode
ter alta auto-estima e humildade simultaneamente.
Quando eu compartilhei
alguns desses pontos com a jovem que havia me enviado
sua pergunta por e-mail, ela me escreveu de volta:
“É-me um grande alívio entender esses
pontos dessa perspectiva. Agora eu entendo que não
tenho que continuar convivendo desonrosamente com
todo o tipo de abusos para ser espiritual”.
Ele me sugeriu a escrever
um artigo sobre o tema para a revista Volta ao Supremo.
Eu aderi de todo o coração sua sugestão,
uma vez que outros devotos haviam feito perguntas
similares ao longo dos anos. Espero que o artigo seja
útil para todos.
Tradução
por Bhagavan dasa (DVS)
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