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Artigo originalmente publicado na revista Volta ao
Supremo [Back to Godhead] – Fundada por Srila Prabhupada
no ano de 1944
Da
Moralidade à Espiritualidade
- por Caitanya Carana Dasa
Não faltam
notícias falando sobre corrupção,
nepotismo ou infidelidade. Os políticos dizem,
“Uma educação ética e moral é
a solução”. Mas a maior parte das pessoas
já não têm o errado como certo?
Eu diria que sim. Elas acham que vão se dar
melhor na vida se não seguirem códigos
morais. E exortações por parte dos moralistas,
ou legislações por parte dos políticos,
não parecem inspirar essas pessoas a pensarem
diferente.
Viver sob princípios
morais é como seguir as leis de trânsito
para se ter uma viagem segura e tranqüila. Não
se viaja, todavia, com o propósito de se seguir
as leis, mas com o propósito de alcançar
um destino. Se uma pessoa que está viajando
sente que as leis de trânsito atrapalham-no
a alcançar seu destino, ela talvez quebre essas
leis se acredita que pode ficar impune.
Assim como as leis
de trânsito, princípios morais promovem
ordem, especialmente no âmbito das relações
sociais. Mas a educação moderna não
nos ensina sobre o objetivo das transações
sociais ou sobre o objetivo da vida em si. Assim,
as pessoas talvez sigam valores morais motivadas pela
cultura ou tradição, mas abandonam esses
valores quando seduzidas por algo ou quando as circunstâncias
não forem muito favoráveis. Ainda pior,
para se obter as incessantemente glorificadas metas
da sociedade moderna de consumo – fama, riqueza, luxo,
poder, prazer, prestígio – encoraja-se, e às
vezes até mesmo se exige, um comportamento
imoral. O Bhagavad-gita (16.8-15) explica que uma
visão de mundo baseada no materialismo conduz
a pessoa à luxúria insaciável
e à cobiça, que, por sua vez, conduzem
à execução de atos corruptos.
Sendo constantemente bombardeadas com os valores materialistas,
as pessoas talvez sintam que, se forem morais, perderão
muito e não ganharão nada tangível.
Além do mais, nossa educação
sem valores religiosos não nos dá nenhum
conhecimento acerca de qualquer lei superior a do
homem. E a incapacidade de reformação
de nosso sistema penal também é bem
famosa. O resultado? A moralidade parece ser totalmente
dispensável, especialmente para os espertos
e poderosos. Em tal contexto, como podemos esperar
que um simples conselho inspire as pessoas a serem
morais?
Amor: A Base
da Moralidade
“Moralidade significa
falta de oportunidade”. Este ditado americano expressa
bem a abordagem utilitária da moralidade. Os
textos Védicos da antiga Índia afirmam
que moralidade sem espiritualidade é algo infundado
e, portanto, impermanente. Se nós realmente
aspiramos por moralidade em nossa sociedade, precisamos
introduzir uma educação sistemática
centrada em uma meta de vida positiva. Os textos Védicos
nos informam de uma meta de vida espiritual que é
universal e não-sectária: desenvolver
amor puro por Deus. Somos todos seres espirituais
destinados a desfrutar de nossa eterna relação
amorosa com o supremo ser espiritual todo-atrativo,
Deus. Sendo espirituais por natureza, não podemos
encontrar verdadeira felicidade em aquisições
materiais, mas unicamente em nosso inato amor por
Deus. Quanto mais amamos Deus, mais felizes nos tornamos.
O amor por Deus tem
por conseqüência o amor por todas as entidades
vivas, sendo essas nossos irmãos e irmãs
na grande família universal de Deus. Quando
realmente amarmos todos os seres, não iremos
querer explorá-los ou manipulá-los para
a satisfação de nossos desejos egoístas.
Ao contrário, nosso amor por Deus irá
nos inspirar a nos amarmos e a nos servirmos mutuamente:
criando uma cultura de amor e confiança, que
traz o comportamento moral consigo. Já a cultura
moderna de alienação e desconfiança,
em grande contraste, traz a imoralidade consigo.
Práticas espirituais
genuínas, mesmo nos primeiros dias de prática,
despertam nosso inato sistema de valores. Nós
intuitivamente realizamos que Deus é nosso
maior bem-querente. Por conseqüência, de
forma voluntária e amorosa, escolhemos seguir
os princípios morais da vida espiritual, como
sugeridos por Deus, sabendo que são o melhor
para nós. E à medida que redescobrimos
a felicidade de se amar a Deus, tornamo-nos livres
da luxúria, da cobiça e das motivações
egoístas. Já não mais achamos
faltar algo porque somos morais. A moralidade deixa
de ser a escolha “difícil mas necessária”,
e passa a ser a escolha fácil e natural no
nosso caminho de amadurecimento espiritual.
Não
se Trata de uma Utopia
Alguns talvez digam,
“Isso soa muito bonito, mas não é científico,
é utópico”. Em outras palavras, vivemos
em uma era em que apenas a visão de mundo prática
e científica é considerada lógica
e aceitável. Mas seria a visão de mundo
Védica realmente ilógica e impraticável?
Nós temos sempre
que lembrar que a ciência nunca provou a não-existência
de Deus ou da alma; mesmo que muitos cientistas escolham
a reducionista abordagem do universo como algo destituído
de qualquer realidade espiritual. Mas de uma forma
um tanto impressionante, mesmo dentro dessa priori
reducionista, alguns cientistas aceitam que há
fortes evidências que sugerem a existência
de um criador supra-inteligente (Deus) e uma fonte
de consciência não-material dentro do
corpo (alma).
O amor por Deus só
pode parecer utópico até o momento em
que não conhecemos a coerente filosofia que
traça o caminho para sua aquisição.
Através de práticas espirituais genuínas,
como orações, meditação
e o cantar dos nomes de Deus, qualquer um pode experimentar
um grande crescimento espiritual. Uma vez que tenhamos
experimentado amor imortal, realizaremos que o amor
é definitivamente a meta última da vida.
Moral Superior
Alguém que
conheça alguns episódios da vida de
Krsna e de Seus devotos talvez levante a objeção:
“Mas o próprio Krsna, algumas vezes, age de
forma imoral. E igualmente agem seus devotos. Como
é possível que a adoração
a um Deus imoral ajude-nos a nos tornamos morais?”.
Para entender isso,
precisamos, primeiramente, tecer algumas considerações
acerca do propósito último de todos
os valores morais. Estamos perdidos na escuridão
da ignorância do mundo material, sem saber o
que devemos fazer e o que não devemos fazer.
Como um archote, os valores morais iluminam nosso
caminho. Eles nos protegem de nos perdermos pelo caminho,
e nos mantêm na direção de nosso
objetivo maior – amar a Krsna e retornar a Ele. Mas
Krsna é a fonte de toda a moralidade, assim
como o sol é a fonte de toda a luz. Porque
Ele é plenamente auto-satisfeito, Ele age unicamente
por amor a nós, sem nenhuma mácula de
egoísmo. Ele age ou para reciprocar nosso amor
ou para ajudar-nos a não nos desviarmos de
nosso caminho religioso. Ele não precisa de
códigos morais porque não tem sequer
o menor vestígio de desejos egoístas.
Somos nós quem precisamos de códigos
morais, exatamente porque estamos cheios de desejos
egoístas. Mas se nos tornamos orgulhosos de
nossa moralidade e tentamos examinar Krsna a partir
dela, isso é como tentar iluminar o sol usando
uma tocha. Isto não só é tolice,
mas também perda de tempo.
Quando o sol nasce
por seu próprio arranjo, sua refulgência
revela toda a sua glória. Similarmente, quando
Krsna decide se revelar espontaneamente, podemos entender
como são imaculadas Suas glórias e moral.
Até lá, o melhor a fazermos é
seguirmos escrupulosamente os códigos morais
para darmos prazer a Ele, até que, estando
satisfeito, Ele se revele a nós. E devemos,
também, tomar cuidado para não nos tornarmos
orgulhosos de nosso comportamento adequado.
Se aceitarmos a posição
de Krsna como o Senhor Supremo, podemos entender um
pouco sobre como Suas atividade são morais.
Krsna, por exemplo, rouba manteiga das casas das vaqueiras
de Vrndavana. Mas como se pode considerá-lO
um ladrão quando foi Ele quem criou tudo e
portanto é o proprietário de tudo? Ele
assume o papel de uma criança para reciprocar
o amor maternal de Seus devotos. Seus furtos, executados
como a diversão de uma criança travessa,
aumentam o apego e afeto de Seus devotos amorosos.
Como isso pode ser comparado aos nossos furtos, que
têm por conseqüência o sofrimento,
a dor e a punição?
De forma similar,
Krsna aceita o papel de um belo jovem para reciprocar
o amor dos devotos que anseiam por uma relação
conjugal com Ele. Seu amor pelas gopis, as jovens
vaqueirinhas, não é baseado na beleza
de seus corpos, mas na devoção de seus
corações. Algumas pessoas alegam que
os passatempos de Krsna com as gopis são como
as relações luxuriosas entre garotos
e garotas comuns. Mas, então, por que grandes
santos que renunciaram completamente o amor sexual
deste mundo, aceitando-o como insípido e grosseiro,
iriam adorar os passatempos de Krsna com as gopis?
Mesmo hoje, milhares de pessoas ao redor de todo o
mundo estão se livrando dos desejos luxuriosos
por cantarem os nomes de Krsna e por adorá-lO.
Se Krsna fosse controlado pela luxúria, como
seria possível para Ele livrar Seus devotos
da mesma?
Na batalha contra
os Kauravas, Krsna insta os Pandavas a agirem imoralmente.
Mas isso é como uma autoridade instar um policial
a exceder o limite de velocidade para que ele prenda
bandidos que estão dirigindo acima do limite
de velocidade. O policial está (aparentemente)
infringindo a lei para servir ao verdadeiro objetivo
da lei. Similarmente, os Pandavas quebram valores
morais para servirem ao objetivo superior de Krsna:
estabelecer leis morais tirando os imorais Kauravas
do poder.
Em circunstâncias
excepcionais, os devotos de Krsna talvez tenham que
agir de forma aparentemente imoral para cumprirem
seu dever, que visa o benefício último
de todas as entidades vivas. Mas, de forma geral,
os devotos seguem códigos morais como uma oferenda
devocional a Krsna. De fato, sem devoção,
nós não teríamos a força
interior necessária para manter por toda a
vida os valores morais que aceitamos.
Nós temos que
ser cautelosos ao tentarmos entender as ações
de Krsna, que estão acima da moralidade. De
outra forma, nós podemos entendê-lO errado
e rejeitar Seu amor, condenando-nos, assim, a ficarmos
longe da verdadeira moral e a sofrermos as reações
karmicas provenientes de nossas compreensões
equivocadas.
Se queremos ser morais
de forma constante, exortações vazias
e uma legislação ineficaz não
bastam. Enquanto se incentivar às pessoas a
conquistarem metas materiais, elas verão a
moralidade como algo imprático ou até
mesmo indesejável. Apenas quando tomarem o
amor por Deus como a meta da vida é que a moralidade
se tornará desejável e coerente. Portanto,
em um nível sociológico, temos que introduzir
a prática e a educação espiritual
genuína, que conduzirá as pessoas ao
amor por Deus e a objetivos interiores. E, em um nível
individual, reconhecer a base espiritual da moralidade
é algo muito motivador. Essa consciência
permite-nos agir livre da necessidade de aprovação
de outros, da apatia ou da indignação
por ser o único a agir corretamente. Em um
tecido cancerígeno, uma célula saudável
pode ativar o processo de cura das demais. Similarmente,
quando o câncer da imoralidade aflige a sociedade
moderna, cada um de nós pode, por conduzir
sua própria vida de forma espiritual e íntegra,
ativar o processo de cura da sociedade.
Tradução por Bhagavan dasa
(DVS)
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