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Artigo originalmente publicado na revista Volta ao
Supremo [Back to Godhead] – Fundada por Srila Prabhupada
no ano de 1944
A Vida Após a Morte e os Pressupostos da Ciência
Moderna
- por Navin Jani
* Artigo
referente à edição do bimestre
de janeiro/fevereiro de 2006
Eu
li recentemente um dos últimos livros de Ian
Stevenson, intitulado 20 Casos Sugestivos de Reencarnação.
Dr. Stevenson é professor pesquisador da Universidade
de Virgínia na área de psiquiatria,
e vem fazendo pesquisas na área da reencarnação
por mais de trinta anos. Ao longo desses anos, ele
acumula centenas de casos de crianças que conscientemente
lembram detalhes de vidas passadas, exibem marcas
de nascença ou fobias conectadas à lembrança
de uma morte personificada, ou até mesmo falam
fluentemente línguas com as quais nunca tiveram
contato.
Stevenson e sua equipe
investigam e estudam muitos dos relatos através
de entrevistas, pesquisas em registros históricos,
e também visitam os locais, alguns muito remotos,
descritos pelas crianças. Muitas pessoas conhecem
seu trabalho com grande proximidade, e, mesmo assim,
poucos pesquisadores dos círculos acadêmicos
convencionais aceitam a seriedade de seus estudos.
Por que tal indiferença? O que leva a comunidade
intelectual a não acatar a pesquisa de Stevenson
e o conceito da reencarnação?
Eu sou graduado no
programa de Ciência, Tecnologia e Sociedade
da Universidade de Stanford, e esta não é
a primeira vez que penso sobre a fundamentação
da ciência moderna e sua relação
com a tendência cultural dominante. No senso
comum, há a idéia de que a pesquisa
científica deve ser um empenho frio que negue
qualquer outra afirmação acerca da realidade
que não siga suas propostas. Como resultado,
as pessoas esperam que seja atribuída uma categoria
única para o conhecimento científico,
livre de todas as demais formas de conhecimento, como
opinião, intuição ou revelação.
A justificativa seria que a ciência é,
supostamente, livre da subjetividade, do preconceito
e da fé cega que talvez caracterizem essas
outras fontes de conhecimento.
Mas tal distinção
é artificial. A ciência está longe
do objetivo de trazer conhecimento de forma neutra
e imparcial, como lhe é comumente atribuída;
senão que é afetada por todo o tipo
de considerações subjetivas. Não
apenas a subjetividade geral, mas ela também
em seu aspecto espiritual, contribui para a baixa
estima do trabalho de Stevenson e de sua equipe de
pesquisadores.
Percepção
Maculada
O efeito de fatores
que fogem à razão nas pesquisas científicas
empíricas é discutido de forma notável
por Thomas S. Kuhn em seu clássico A Estrutura
das Revoluções Científicas. Entre
os diversos fatores levantados pelo autor, os que
vejo mais conectados ao ponto da reencarnação
são a natureza teórica da percepção,
o papel dos paradigmas na pesquisa científica
e a natureza social de tal pesquisa.
A primeira influência
se refere ao efeito inconsciente do posicionamento
e visão de mundo de quem percebe um objeto
de estudo específico. A idéia geral
é que os cientistas levantam vários
fatos e então esses são processados
de forma estritamente objetiva e racional para se
chegar a uma teoria. Stevenson, todavia, afirma que
“crenças anteriores influenciam o julgamento
das evidências; e elas influenciam, ainda mais,
as considerações primárias que
resultam nas evidências”. Um conjunto de valores
científicos, de forma inconsciente, molda as
conclusões a que os cientistas chegam. Além
do mais, mesmo os fatos originais em si são
subjetivos no sentido em que podem ter significados
diferentes para pessoas diferentes. Sob este prisma,
a imagem do cientista de mente aberta estudando de
forma transparente o mundo a fim de chegar a uma verdade
objetiva se demonstra irreal. O que um pesquisador
acredita antes de começar sua investigação
necessariamente afeta o que ele conclui por fim.
Kuhn cita um interessante
experimento psicológico para exemplificar este
fenômeno da subjetividade motivada por experiências
prévias. Os pesquisadores pediam aos voluntários
da pesquisa pra identificarem uma séria de
cartas de baralho que lhes eram mostradas de forma
cada vez mais rápida. Misturadas no baralho
padrão, todavia, havia algumas cartas irregulares,
como um seis de espadas vermelho e um quatro de copas
preto. Quando as cartas eram mostradas em um movimento
rápido e logo escondidas, quase todos os voluntários
identificavam corretamente as cartas regulares, mas,
sem hesitação, identificavam de forma
incorreta as cartas irregulares (eles identificariam,
por exemplo, um quatro de copas preto convencionalmente
como um quatro de espadas preto ou um quatro de copas
vermelhos). Quando o tempo de exposição
foi ampliado, os voluntários da pesquisa começaram
a hesitar identificar as cartas irregulares, até
que, depois de percebido que a idéia prévia
do baralho poderia ser um problema, eles passaram
a identificar as cartas corretamente sem dificuldade.
A princípio, os voluntários categorizavam
as cartas estranhas em uma das categorias normais
que conheciam. Apenas com um tempo de exposição
extremamente exagerado, cerca de quatro vezes maior
do que o necessário para a identificação
das cartas regulares, foi possível para eles
identificarem corretamente as cartas irregulares.
Tem-se que aceitar, assim, que, até o final
da pesquisa, muitos dos voluntários estavam
de fato “vendo” algo diferente do que de fato estava
diante de seus olhos.
Voltando a especificidade
da reencarnação, essa percepção
seletiva afeta a maneira negativa com que os cientistas
e as pessoas adeptas ao cientificismo reagem às
mesmas evidencias que convencem positivamente Stevenson.
Quanto a seus estudos catalogados, e outros similares
possivelmente existentes, por que não são
mais amplamente estudados ou divulgados? A resposta
é a predisposição geral da sociedade
ocidental, mesmo que inconsciente, em negar a crença
da transmigração da alma. Muito embora
se possa encontrar indivíduos ou grupos que
aceitam o conceito, há duas idéias predominantes:
uma estrita descrença secular na existência
da alma, ou uma crença religiosa que aceita
apenas uma vida terrestre. O padrão cultural
e educacional da sociedade ocidental simplesmente
não torna as pessoas receptivas à idéia
da reencarnação. Aqueles que aceitam
o conceito, fazem-no em detrimento de sua formação
fundamental. Assim, a maioria das pessoas, sejam elas
cientistas ou leigos, são predispostas a não
darem atenção às evidências
que sugerem a reencarnação, enquanto
Stevenson, devido a suas experiências e formação
idiossincrática pessoal, tinha a mente mais
aberta e dedicou cuidadosa atenção a
cada evidência.
Paradigmas
Enraizados
Uma outra fonte de
subjetividade na prática da ciência moderna
é decorrente dos paradigmas. Kuhn escreve que
paradigmas são fundamentais para a prática
da ciência padrão. Um paradigma é
uma maneira de ver o mundo e o estudo do mesmo de
acordo com uma comunidade científica que estabelece
assunções, regras, métodos e
instrumentos aceitos de maneira geral. Um paradigma
ajuda a se ter um estudo detalhado e preciso, porque
aqueles que estudam de acordo com ele não têm
que construir seus argumentos do nada, mas podem proceder
a partir de uma base comum de fundamentos pré-aceitos.
Ao invés de investirem seus esforços
em diversas direções, eles podem, com
o suporte do paradigma, focar nas áreas específicas
da nova pesquisa e desenvolver ferramentas e técnicas
apropriadas para a área.
O problema dos paradigmas
é que, por serem muito úteis, tornam-se
firmemente enraizados e apenas com muita dificuldade
se consegue algo fora deles. O mesmo sistema de crenças
e métodos específicos que faz as pesquisas
mais eficientes e faz certos tipos de progresso serem
possíveis torna-se obstáculo para a
aceitação de novas crenças, para
o desenvolvimento de novas técnicas, e para
a aquisição de alguns tipos muito grandiosos
de progresso. Assim, problemas e fenômenos que
não se encaixam dentro dos parâmetros
do paradigma dominante são frequentemente rejeitados.
Kuhn escreve que a “metafísica é, ora
considerada outra disciplina, ora considerada simplesmente
como algo problemático de mais para se investir
tempo”.
Essa obstinada resistência
a mudar lembra-me um livro que li de um graduando
que comparava a iniciativa da ciência moderna
ao mítico golem do Judaísmo. Essa criatura
autômata, feita de barro, era completamente
subordinada a seu criador, sem nenhuma vontade própria.
O ponto colocado pelo autor era que a possibilidade
de uma iniciativa científica ser genuinamente
flexível e aberta a novas informações
é a mesma de um estúpido golem empedrado
dançar balé; ambos têm tantos
comandos estabelecidos, que tendem a simplesmente
seguir seu trajeto passando por cima de qualquer coisa
em seu caminho.
O trabalho de Ian
Stevenson é marginalizado exatamente por não
estar de acordo a maioria dos paradigmas contemporâneos.
Apesar de apresentar volumosas evidências convincentes,
a idéia da reencarnação é
tomada como anátema pelos estudiosos tradicionais,
e os estudos de caso de Stevenson ou são explicados
de outra maneira ou apenas rejeitados sob o rótulo
de não-científicos. A refinada lógica
da reencarnação, explicada através
de inúmeras observações, é
irrelevante. Simplesmente não há espaço
na visão de mundo das comunidades científicas
para o fenômeno de seres vivos descorporificados
que migram de um corpo a outro. Assim, apenas uma
mudança de paradigma poderia trazer maior valorização
dos estudos de Stevenson.
Auto-preservação
Um terceiro fator
que determina a prática científica é
a natureza social da pesquisa. Acadêmicos relutam
em aceitar teorias que fujam muito das leis e princípios
estabelecidos porque suas reputações,
e possivelmente suas carreiras, dependem da credibilidade
e respeito de seus colegas de profissão. Em
uma dimensão social informal, os cientistas
normalmente preferem não se arriscar de forma
que possam ser ridicularizados ou diminuídos
por apresentarem teorias não-convencionais.
Em uma dimensão formal, pesquisadores podem
ter conseguido posições de prestígio
ou podem ter ganhado prêmios e reconhecimento
por seus trabalhos relacionados a uma teoria específica;
assim, são aversos a novas descobertas que
diminuam suas pesquisas.
A tentação
de transferir para outro setor os “pesquisadores renegados”,
juntamente com suas informações e fundamentos,
ou simplesmente demiti-los, pode ser forte demais
para ser resistida. Dr. Richard Thompson e Michael
Cremo se referem a este forte empreendimento para
a manutenção do status quo como “filtro
de conhecimento”. O trabalho dos dois pesquisadores
na área de anomalias arqueológicas cita
diversos casos de cientistas que foram estigmatizados
e perseguidos por apresentarem descobertas que fugiam
do conhecimento convencionado (datando, por exemplo,
certos tipos de fósseis como sendo dezenas
ou até mesmo centenas de milhares de anos mais
antigos do que o comumente aceito).
O cenário é
de alguma forma remanescente de “A Nova Roupa do Imperador”
de Hans Christian Anderson. Houve, uma vez, um vaidoso
imperador cuja afeição era completamente
voltada para roupas extravagantes e refinadas. Uma
dupla de vigaristas decidiu tirar vantagem dessa fraqueza
do rei e fizeram-lhe uma proposta: por uma pequena
fortuna, eles teceriam uma vestimenta para o imperador
feita de um novo e revolucionário tecido que,
de tão fino, pareceria invisível para
as pessoas tolas. O imperador concordou, e os trapaceiros,
tirando vantagem da confiança que o rei lhes
tinha, vestiram o rei com coisa nenhuma. Quando desfilou
com sua nova “veste” perante seu povo, todavia, ninguém
teve coragem de admitir estar vendo o rei nu, pois
isso significaria serem eles tolos. Uma simples criança,
por fim, apontou o óbvio e claro fato de que
o rei estava nu, e, tendo os cidadãos parado
de mentir uns para os outros, o imperador teve de
terminar sua procissão sem sequer olhar para
os lados, sabendo que estava, de fato, nu.
A reação
da comunidade intelectual às descobertas de
Ian Stevenson não é diferente da reação
dos cidadãos à nova roupa do imperador.
Mesmo que alguns indivíduos concordem com algumas
de suas idéias ou achem suas evidências
pertinentes, o medo da censura por parte de seus colegas
não lhes permite admitir publicamente que se
simpatizam com as idéias reencarnacionistas.
Praticamente todos estão cientes das limitações
e debilidades das explicações convencionais
para negar o que as pesquisa de Stevenson evidenciam,
mas, mesmo assim, pensam que é melhor não
se envolverem do que se arriscarem a fugir das normas
e serem taxados de não-científicos.
A Presunção
Científica
Os três fatores
delineados acima – a influência das percepções
passadas na percepção presente, o processo
pelo qual o paradigma da ciência moderna se
torna enraizado, e a natureza social da pesquisa –
são alguns dos problemas, apontados por Kuhn
e outros, associados à imagem racional e estritamente
objetiva atribuída à ciência.
Eu indiquei como todos os três possivelmente
exerçam o papel de impedirem que os profissionais
das comunidades de pesquisa apreciem o trabalho pioneiro
de Ian Stevenson acerca da reencarnação.
Eu acredito que outra dinâmica vem ganhando
espaço, talvez mais significativa e certamente
menos compreendida: a presunção da ciência
moderna.
O objetivo última
da pesquisa científica, como ela existe atualmente,
é entender, manipular e, por fim, assenhorar-se
da matéria. Físicos chegam a falar do
desejo de desenvolver uma grandiosa e uniforme teoria
na forma de poucas equações (ou até
mesmo de uma única) que caiba em uma camiseta.
Em sua busca pela verdade, cientistas querem depender
unicamente de seu próprio intelecto e de sua
habilidade inata de fazer novas descobertas. “O homem
é a medida de todas as coisas” é seu
lema, e o potencial infinito do intelecto humano,
seu credo. Mesmo os que acreditam em Deus, colocam-nO
em segundo plano, como o iniciador do universo, mas
que este, agora, existe de forma completamente mecânica.
A ciência tem também na base de seu sistema
de crenças que o universo é um enigma
que pode ser respondido através do esforço
humano. A posição privilegiada da ciência
dentro da sociedade como o Todo Completo, e os cientistas
como indivíduos especiais, formam, em resumo,
a doutrina científica.
Fontes Superiores
Um fenômeno
como a reencarnação, que indica uma
realidade além do microscópio e do telescópio,
deixa bem claro para os cientistas que seu senso de
superioridade é apenas ilusório e que
seu status está sob constante ameaça.
O fato é que a pesquisa empírica, como
a de Ian Stevenson, pode levar-nos apenas até
certo ponto no entendimento da transmigração
de um ser não-material. Mesmo se os cientistas
aceitarem seu trabalho, esses novos estudiosos da
reencarnação terão de buscar,
em algum momento, outras fontes de informação,
como as escrituras reveladas, para obterem conhecimento
completo. Para isso, eles teriam de admitir sua dependência
de uma autoridade superior a eles. Tal idéia
de submissão, todavia, é herética
à proposta investigativa da ciência contemporânea,
e, por isso, é muito mais simples apenas rejeitar
a reencarnação.
Se os cientistas fossem
capazes de assumir uma postura humilde, poderiam obter
grandes benefícios estudando a literatura Védica
da Índia, que representa uma fonte coerente
de informações acerca da reencarnação
e de outros tópicos que vão além
dos limitados temas propostos pela ciência atual.
A literatura Védica explica que a natureza
real deste universo é inconcebível para
a percepção do homem comum, e informações
acerca do mesmo devem ser recebidas de Deus através
de Seus mensageiros e escrituras reveladas. Entre
essas escrituras encontra-se o Bhagavad-gita, que
nos informa sermos todos almas espirituais eternas
pertencentes ao mundo espiritual, servos do Senhor
Supremo. Em nossa verdadeira morada, somos todos imortais,
plenos de conhecimento e constantemente felizes. Devido
ao desejo de desfrutarmos em separado do Senhor, todavia,
somos forçados a descer a este mundo material
e nos sujeitamos a repetidos ciclos de nascimentos
e mortes. Aqui, somos obrigados a reencarnar em várias
espécies de vida até que aceitemos novamente
a supremacia de Deus, ou Krsna; o que nos tornará
aptos a voltar ao Seu reino. Até lá,
as ações de nossa vida atual determinam
qual será nosso próximo corpo material.
De forma significativa,
a compreensão Védica acerca da reencarnação
não impede ou anula o estudo sistemático
ou a investigação experimental da mesma.
Em outras palavras, as pesquisas científicas
poderiam continuar, mas com outra postura (e talvez
com outras teorias e ferramentas). Ao invés
de começarem o estudo da natureza aceitando
a si mesmos como os senhores desta e com a presunção
de que as pesquisas científicas, como são
feitas atualmente, são uma fonte infalível
de conhecimento objetivo, a comunidade intelectual
teria que assumir suas limitações, algumas
das quais foram descritas neste artigo, e adotar uma
postura de humildade coerente com suas debilidades.
Assim, os cientistas
poderiam começar a aceitar a reencarnação
baseada no trabalho de Stevenson e, então,
voltarem-se às escrituras Védicas para
maiores informações e instruções.
Os textos Védicos em si garantem que o cultivo
sincero de seu conhecimento resulta em realização
genuína e verdade experimentável. Embasados
com uma consistente e bem-fundamentada compreensão
acerca da reencarnação, os cientistas
poderiam oferecer à sociedade respostas para
suas perguntas mais urgentes: Por que algumas pessoas
sofrem e outras prosperam em suas vidas atuais? Cada
pessoa está simplesmente experimentando os
resultados das ações de sua vida passada.
Por que as pessoas deveriam ser morais e evitar atividades
pecaminosas? Porque, assim, garantem a si mesmas uma
vida seguinte melhor.
É claro que
o entendimento último acerca da reencarnação,
como anunciado pelas escrituras Védicas, é
que devemos tentar por fim no ciclo de repetidos nascimentos
e mortes fazendo as pazes com Deus. Tão logo
nos rendamos a Ele, Ele promete no Bhagavad-gita,
que irá encher nosso coração
com conhecimento acerca de tudo o que há para
ser conhecido. E que viveremos junto a Ele em eterna
bem-aventurança. Pelo que mais os cientistas
podem ansiar?
Tradução por Bhagavan dasa
(DVS)
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