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Artigo originalmente publicado na revista Volta ao
Supremo [Back to Godhead] – Fundada por Srila Prabhupada
no ano de 1944
Sankirtana!
Caridade para Todos os Seres
- por Dayananda Dasa
Alex, meu barbeiro,
trabalha no salão Pilatos no Queen, Nova Iorque,
no começo do bairro hispânico. O salão
tem, em sua maioria, cabeleireiros e clientes latinos,
e é muito alegre e colorido, muitas vezes com
salsa tocando em um som ambiente. Em uma visita recente
ao salão, ao invés de salsa, estava
tocando o mantra om namo bhagavate vasudevaya, que
significa “reverências ao Supremo Senhor Krsna”.
Comentei com Alex que aquela era uma das canções
do Hare Krsna. Ele e eu conversamos algumas vezes
sobre a consciência de Krsna, e ele ficou um
pouco interessado. Parece que o CD era uma compilação
européia de várias canções
e orações exóticas de todo o
mundo, e fora Alex quem o trouxera para o salão.
Ele me perguntou sobre
o cantar. Eu lhe expliquei que a base da religião
Hare Krsna é o sankirtana, ou a glorificação
do Senhor em tudo o que se faz. Uma forma de sankirtana
é o cantar dos Santos Nomes do Senhor.
Alex havia visto uma
vez um grupo cantando pelas ruas, e perguntou “Cantar
é tudo o que sua religião faz? Vocês
não fazem caridades ou trabalhos voluntários?”.
“Nós fazemos
esse tipo de trabalho”, eu respondi, “mas nossa caridade
é para a alma”.
Caridade para
a Alma
Em uma conversa anterior, eu havia explicado para
o Alex que não somos esses corpos; que somos
almas. O corpo é o veículo da alma.
Ainda assim, a idéia de caridade ou compaixão
pela alma o deixou confuso, então lhe expliquei
que meu guru, Prabhupada, compara a caridade motivada
por compaixão ao corpo a salvar o casaco de
uma pessoa que está se afogando e deixá-la
se afogar, enquanto que a caridade motivada por compaixão
à alma seria salvar a pessoa que se afoga.
Contudo, Alex, visivelmente, não podia imaginar
como algo poderia ser feito para o benefício
da alma.
Eu lhe expliquei que
o próprio cantar é a maior atividade
beneficente, porque ele invoca a presença do
Senhor na forma de Seu nome. Quando cantamos em público,
todos aqueles que escutam são beneficiados
com a associação do Senhor. Assim, lembre-se:
sankirtana é caridade. Alex, que é Católico
e da Costa Rica, disse que algumas das freiras que
ele conheceu em sua escola costumavam cantar o rosário
quase que o dia inteiro. Ele estava imaginando se
isso era algo parecido com o nosso sankirtana.
“Sim”, eu respondi,
“é similar ao sankirtana. Prabhupada certa
vez disse que o cantar do nome de Allah feito pelos
muçulmanos também é sankirtana”.
Alex disse que não
queria me ofender, mas ele disse ter notado que muitas
pessoas que vêm os Hare Krsna cantando não
entendem o que eles estão fazendo.
Ele perguntou, “como
isso pode ser benéfico se as pessoas não
entendem?”.
Expliquei, então,
que o efeito do cantar não depende de nossa
compreensão. Dei o exemplo de um remédio
que tomamos para curar uma doença. Nós
temos que tomar as pílulas, mas não
temos de saber como elas funcionam. Depois de certo
tempo, o remédio faz efeito e a doença
some. Similarmente, o cantar cura a alma de sua doença,
que é se prender em maya.
Alex se lembrou que
havíamos falado sobre maya em nossa última
conversa.
“Sim”, eu disse, “maya
é ilusão, e ela nos mantém focados
neste mundo, enevoando nossa tendência de estarmos
conectados com Krsna”.
Ele gostou da minha
explicação do misterioso efeito do cantar,
mas ele continuou achando imprático cantar
no meio de pessoas que não faziam a menor idéia
de estarem sendo curadas de maya.
“De fato”, eu expliquei,
“nós dizemos, sim, sobre maya e Krsna. Nosso
trabalho beneficente inclui a disseminação
dos ensinamentos e glórias de Krsna. E, sim,
você está certo: quando as pessoas entendem
Krsna, elas recebem um benefício maior de nossa
caridade na forma de sankirtana”.
Eu adicionei que a
distribuição de livros é nosso
meio mais efetivo de informar as pessoas do significado
do sankirtana.
Ele perguntou, “Vocês
vendem livros no metrô, como os Cientologistas
e os testemunhas de Jeová?”.
Eu expliquei que temos
alguns livros:
“Um deles é
chamado Gita, que contém as instruções
de Krsna, e outro seria o Bhagavatam, que é
uma coleção de livros contendo as glórias
de Krsna. E nós os distribuímos amplamente,
algumas vezes, mesmo no metrô”.
Tocado pela minha
sinceridade, Alex se lamentou pelo fato de uma religião
na qual todos simplesmente cantam o tempo todo não
parecesse prática.
“Bom”, eu disse, “alguns
de nossos santos são exemplos de pessoas que
cantavam continuamente, mas Prabhupada me sugeriu
não seguir este caminho. Ele me sugeriu cantar
por cerca de uma hora e meia ou duas horas por dia
como dever de discípulo, mas ele disse que
usar as demais horas do dia para trabalhar para Krsna
seria tão bom quanto cantar. Ele me preveniu
dizendo que preguiça poderia fazer as pessoas
cantarem para evitarem tal trabalho. Porque eu era
um pai de família, Prabhupada me encorajou
a ter uma profissão honesta e usar meu empenho
e dinheiro para o sankirtana”.
A Fórmula
da Caridade Transcendental
Alex ficou com o
pé atrás quando mencionei dinheiro.
Ele disse que sacerdotes católicos que ele
conhece estão sempre pedindo dinheiro, e que
ele não gosta muito disso. Eu expliquei que
Caitanya havia prescrito um espécie de fórmula
da caridade transcendental que abrangia sua questão:
“Caitanya instou todos
a fazerem caridade na forma de sankirtana através
de oferecer palavras, inteligência, riqueza
e vida. Ele ensinou que a base para a caridade em
foram de sankirtana são a oferenda de palavras,
incluindo o cantar público ou a distribuição
da palavra impressa. Inteligência também
é usada na caridade, organizando-se festivais
de mantras e estratégias para a distribuição
de livros. Por exemplo, todo ano aqui em Nova Iorque,
nós temos uma grande procissão descendo
a quinta avenida chamada Rathayatra, com grandes e
coloridos carros adornados com bandeiras e dosséis.
Vários Hare Krsnas dedicam sua inteligência
em conseguir autorização para o festival,
organizando mostruários de livros, preparando
comida ou organizando a limpeza”.
Pelo espelho, eu pude
ver o rosto de Alex ganhar vida. Ele parou de mexer
no meu cabelo e me disse que havia acompanhado a parada
do Rathayatra em Junho de 2002, alguns meses depois
do ataque ao World Trade Center. Ele comentou que
a devastação do ataque havia o deixado
um tanto deprimido, mas ele sentiu como se o Rathayatra
tivesse rejuvenescido sua alma. Ele também
se lembrou de procissões Católicas em
Costa Rica.
Sem perder o foco,
ele perguntou, “E quanto ao dinheiro que você
mencionou? Quem fica com o dinheiro?”.
Eu respondi, “O ponto
importante é que a doação de
dinheiro tem por base a oferenda de palavras e da
inteligência, assim, nós devemos usar
nossa inteligência quando doamos dinheiro, e
não dependermos de outros para decidirem ou
intercederem. Nosso dinheiro está nos festivais
de mantras e na distribuição de livros.
Nós também o usamos para manter os templos,
que são centros de distribuição
da máxima caridade, o sankirtana. Prabhupada
ensinou que deveríamos nos certificar que nossas
oferendas para o sankirtana não fossem usadas
de forma inapropriada. Parte da missão da organização
que ele fundou – a Sociedade Internacional para a
Consciência de Krsna – é administrar
devidamente o uso das contribuições.
É especialmente importante oferecer dinheiro,
porque Krsna ensina no Gita que tal oferenda é
parte de uma yoga chamada karma-yoga”.
Quando mencionei yoga,
Alex me disse que ele fazia um pouquinho de yoga em
casa e que, algumas vezes, ia a aulas. Expliquei,
então, que karma-yoga é diferente de
exercícios de yoga.
“Karma-yoga é
a oferenda de seu esforço e dinheiro para Krsna
como uma forma de se conectar a Ele. Krsna ensina
que usar dinheiro para o benefício próprio
é a causa do condicionamento material, mas
sacrificar sua riqueza em caridade liberta a pessoa
de maya. Também, Krsna ensinou que karma-yoga
é uma parte essencial da mais alta e poderosa
yoga, bhakti yoga ou serviço devocional. Bhakti-yoga
é a mais alta yoga porque redesperta o amor
por Krsna”.
Meu corte de cabelo
havia acabado já há alguns minutos,
e Alex tinha outro cliente aguardando. Eu apenas o
lembrei que tudo é baseado no cantar. Ele perguntou
se eu poderia escrever as palavras da oração
do CD, então escrevi om namo bhagavate vasudevaya.
Em baixo da oração, eu escrevi: Hare
Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama,
Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.
Eu lhe disse que “a
oração do CD tinha o poder do nome de
Krsna, e que cantá-la iria lhe beneficiar muito.
Além do mais, Prabhupada ensinou a seus seguidores
que cantar Hare Krsna era algo especialmente recomendado
para a era em que vivemos. O cantar de Hare Krsna
é mesmo maravilhoso”.
Alex pediu para seu
próximo cliente ir para a cadeira de lavar
o cabelo, e eu fui para o caixa pagar pelo meu corte.
Eu voltei-me para ele mais uma vez e disse que da
próxima vez eu traria o Gita de Krsna para
ele. Assim ele poderia aprender como oferecer sua
inteligência e também o seu cantar. Aí
ele brincou que ele estava um pouco longe da parte
de oferecer dinheiro. Eu ri.
“Sem problema”, eu
disse, “Krsna diz que você pode começar
Lhe oferecendo até mesmo uma folha”.
Enquanto eu me preparava
para ir embora, Alex me perguntou quanto de dinheiro
eu dava para o sankirtana. Eu respondi que Prabhupada
havia-me sugerido dar cinqüenta porcento do que
eu ganhava, e era o que eu estava tentando dar. Ele
ficou surpreso e disse que isso parecia ser bastante.
“Vou lhe dizer com
sinceridade, Alex”, eu respondi, “eu estava profundamente
grato pelo carinho e treinamento de Prabhupada, e
senti que isso era o mínimo que eu podia fazer.
Também, Caitanya costumava comparar a caridade
do sankirtana à distribuição
de uma fruta que cura da velhice e da morte. Eu sou
encantado com essa analogia, e eu, já algumas
vezes, experimente a satisfação de dar
tal fruta e ver outros tirarem proveito dela”.
Tradução por Bhagavan dasa
(DVS)
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