:: Artigos originalmente publicados na revista Volta ao Supremo [Back to Godhead] – Fundada por Srila Prabhupada no ano de 1944

Soldado de Krsna - por Parthasarathi Dasa


 

Sentado, contemplando o rifle de um soltado morto, do qual se dependurava sua corrente de identificação, eu só conseguia pensar em tudo o que passei para estar hoje onde estou. O caminho que percorri nos últimos vinte e oito anos não foi fácil. Eu parti de uma criança criada nas ruas do Brooklyn, em Nova Iorque, tornei-me um soldado americano e, então, um pregador espiritual. Dentre minhas lembranças, há boas e ruins, há vida e morte. Agora estou na segunda temporada de minha missão em Baghdad, a cidade que bombardeou minha saúde e tomou para si a vida de vários amigos que tive. Mas, ao invés de ficar triste por ter de retomar essa posição, eu me esforço e vejo isso de uma perspectiva consciente de Krsna.

Eu me iniciei na vida militar aos dezessete anos, não por patriotismo ou glória, mas como uma oportunidade de sair do Brooklyn. Eu me esforcei muito para desenvolver as habilidades e valores de alguém dedicado à proteção de seu país. Mas, apesar de ter crescido rapidamente dentro da carreira militar, eu sentia que ainda me faltava algo.

O exército me levou para diversos campos de batalha. Em junho de 1999, eu fui enviado para Kosovo para auxiliar no ataque aéreo. Essa experiência mudaria minha vida para sempre. Eu testemunhei pela primeira vez os horrores da guerra. Um dia, fazendo a patrulha, encontramos duas crianças que foram mortas ao pegarem uma bomba que não havia explodido. Aquilo foi um divisor de águas na minha vida. Aquela visão me levou de uma vida com metas materiais, para uma vida de compaixão e misericórdia.

Naquele mesmo dia, eu recebi em meu e-mail um livro que trazia uma entrevista com uma banda Hare Krsna. Eu achei a filosofia deles muito interessante, e decidi que procuraria um templo depois que deixasse Kosovo.

Tão logo retornei para a Alemanha, meu irmão morreu de câncer. Eu fui totalmente tomado pela a aflição. Então, em um gélido dia de inverno, eu comecei minha busca pelos devotos de Krsna. Por acaso, quando eu estava prestes a desistir, eu os encontrei. Eu logo realizei que a consciência de Krsna era o que eu buscava. Eu queria ajudar as pessoas, e dar Krsna a elas era a melhor forma de ajudá-las.

Eu comecei a freqüentar regularmente o templo de Nurenberg, e às vezes eu saía com os devotos para distribuir os livros de Srila Prabhupada. Eu recebi iniciação espiritual em setembro de 2001.

No Kuwait com a Companhia do Meu Gita

Pelos anos seguintes, eu estava bem em minha carreira militar. Eu fui promovido dentro do posto de sargento e recebi trinta e cinco soldados para cuidar, motivar, instruir e auxiliar em seus desenvolvimentos individuais. No dia primeiro de fevereiro de 2003, recebemos ordens para partimos em direção ao Kuwait devido à possível invasão de tropas iraquianas. Eu não acreditava que eu teria de ir. Como Krsna podia fazer isso comigo? Mas, depois de conversar com meu mestre espiritual, eu me senti melhor. Eu entendi que aquele era meu dever. Eu era um soldado, e o dever de um soldado é lutar.

Eu fui para o Kuwait armado com um rifle, uma japa e o meu Bhagavad Como Ele É. Eu era um soldado do exército do Senhor Caitanya. Era uma situação incomum para tal, mas eu estava determinado a tentar pregar a mensagem do Senhor Krsna. Todo lugar aonde eu ia, eu cantava. Eu vestia meu colete e meu capacete e carregava minha arma, mas, pendurada no meu pescoço, sempre estava meu saco de contas.

No Iraque, era um constante desafio manter a consciência espiritual. Eu não podia cantar minha japa porque eu tinha que segurar meu rifle o tempo todo. Eu tentava manter minha mente ocupada com orações, e tinha grande fé que o Senhor, em Sua forma de Nrsimhadeva, estava me protegendo. Minha alimentação estava muito longe da ideal, e os padrões de limpeza também não eram Vaisnavas. Mas eu estava seguindo minha natureza e fazendo aquele serviço para o meu país e para os soldados sob o meu comando.

Eu tentava manter minha consciência de Krsna, mas era difícil. A melhor forma para isso, que encontrei, era cantar o tempo todo. Uma vez, quando eu e minha tropa estávamos sendo emboscados, eu gritei: “Krsna!”. Ali eu descobri quão poderoso é Seu nome. Ao longo dos dias, enquanto eu cantava, eu sentia minha ansiedade indo embora, e eu ganhava nova disposição para lutar. Eu pude deixar meus pensamentos de lado e simplesmente fazer o que eu tinha que fazer. Eu apenas esperava que Krsna fosse guia.

Quando voltamos para o acampamento, todos me perguntaram como eu podia estar tão calmo. Eu aproveitei a oportunidade para falar sobre a consciência de Krsna para eles. Aqueles soldados tinham fome de Krsna. Enquanto eu lia o Bhagavad-gita, eu vi brilho e vida em seus olhos: o semblante de medo e morte havia ido embora. Por um minuto, aqueles soldados esqueceram a guerra, esqueceram as balas que voavam próximas às suas cabeças. Eles se concentraram na Verdade Absoluta.

Eu expliquei a eles que todos já estamos mortos pelo arranjo de Krsna. Qual era então a razão para temer nossa situação? Na hora da morte, simplesmente devemos nos lembrar de Deus.

Os soldados estavam muito gratos por aquele conhecimento. Alguns perguntaram se poderíamos ter uma aula semanalmente. Sentado em minha cama-beliche, refletindo sobre o dia, eu me dei conta de que Krsna havia me enviado para a guerra como um arranjo para que eu pudesse falar sobre Ele para outras pessoas ali. Eu pude entender que a alma espiritual é eternamente serva de Krsna, e que aqueles soldados puderam se lembrar disso por um instante ao ouvirem o Bhagavad-gita.

A partir daquele dia, antes de sairmos em missão, tínhamos uma breve aula do Bhagavad-gita. Eu espirava um pouco de água do Ganges neles. Era uma cena engraçada – todos aqueles soldados sérios, focados em suas missões, e eu andando em volta deles espirando água em suas cabeças. Eles adoravam aquilo.

Como almas no mundo material, estamos sujeitos a nascimento, doença, velhice e morte. Durante a guerra no Iraque, alguns amigos meus morreram, um deles em meus braços. Aqueles soldados ouviram os passatempos de Krsna e o maha-mantra. Alguns até mesmo me traziam comida para que eu oferecesse a Krsna. Eles se atraíram por Krsna. Quanto mais ouviam sobre Ele, mais Lhe ofereciam suas vidas. Eles eram devotos – de acordo com a definição de devoto do Senhor Caitanya, que é aquele que disse o nome de Krsna ao menos uma vez. Pela misericórdia do Senhor, eles disseram Seu nome em suas breves vidas.

Cura Material e Espiritual

Meu passeio pelo Iraque terminou de forma inesperada. Eu fui ferido pela explosão de uma granada que atingiu meu caminhão. O abalo da explosão fez com que eu perdesse por um instante a consciência de onde estava. Eu olhei para baixo para ver se eu ainda tinha minhas pernas. Eu ouvi meus passageiros gritando, então eu atirei para cima com meu rifle para lhes passar confiança.

Meus ferimentos não representavam perigo de vida, mas, três semanas depois, colocaram-me em um vôo de volta para a Alemanha porque meu pulmão estava secretando sangue. Eu fiquei no hospital por duas semanas. Eu recebi alta no Janmashtami, então fui ao templo de Berlim. Era maravilhoso ver a deidade de Krsna após tudo o que eu havia passado. Aquele dia foi como um sonho. Eu vi meu mestre e irmãos espirituais.

Minha consciência estava pesada por eu ter participado da guerra. Eu estava confuso e pensava ter cometido muitos pecados no Iraque. Após meu mestre espiritual confortar minha mente com conhecimento transcendental, eu comecei a me readaptar à vida normal. Eu me casei e comecei a fazer planos para o futuro. Tudo estava indo bem.

De Volta ao Iraque

Então eu recebi uma nota oficial me informando que eu iria retornar ao Iraque. Como se as coisas não pudessem piorar – eu estava indo para uma base militar que era constantemente atacada por tropas e canhões. Agora, para a minha segunda excursão pelo Iraque, eu deixei para trás minha família espiritual e minha esposa. Mas, desta vez, eu estou aqui para pregar o nome de Krsna neste país ferido pela guerra. Estou mais preparado desta vez. Eu aprendi muito no ano anterior. Eu aprendi que não podemos entender os arranjos de Krsna. Achamos que a vida espiritual é boa na mesma proporção que tudo ao nosso redor está bom. Mas eu tive que entender que temos que manter nossa perspectiva espiritual em todas as circunstâncias. Eu entendo que meu karma me colocou em uma situação em que não posso comer de forma apropriada, em que não tenho a associação dos devotos e em que sou alvo de diversos fuzis.

Eu reflito sobre minha breve estadia na Alemanha na companhia da deidade de Krsna e de Seus devotos. Eu me sinto mais consciente da dependência que tenho dEle. A guerra no Iraque é uma das melhores situações nas quais já estive. Eu posso usar essa situação em que estou inserido para apresentar Krsna para diversas pessoas. É um fato que, durante certo ponto da guerra, todo soldado se volta para Deus em busca de abrigo. Algumas vezes, é uma prece pedindo perdão. Alguns oram por uma morte rápida. Eu oro para que Krsna se manifeste no coração de cada soldado e que faça com que eles se lembrem que são Seus servos.

Agora mesmo, há muitos se lembrando de suas posições como servos de Krsna. Venho falando da consciência de Krsna mesmo para oficiais de patentes superiores a minha. Os resultados têm sido incríveis. Prabhupada queria devotos em todos os setores da sociedade. Eu estou tentando fazer este serviço como uma oferenda a Krsna. A guerra no Iraque não é uma guerra religiosa. Não me importa por que eu estou aqui. Eu estou aqui para pregar a consciência de Krsna. O Iraque não é um país consciente de Krsna, mas a semente de bhakti foi plantada em sua terra. Oremos para que ela crie raízes porque Prabhupada ensinou que a verdadeira paz só virá quando todos forem conscientes de Krsna.


Tradução por Bhagavan dasa (DVS)